o desenho
       
 

desenho    

O pintor
A  paisagem
As águas
As figuras
As figuras II
Palavras
O desenho   

 
 
 
Desenho em pastel sobre papel preparado com latex 69cmx56cm.
 

Nu femininoDesenho em carvão sobre papel preparado com latex. 65cmx56cm

 
   

“O melhor argumento em favor de que a arte se faça matéria de educação geral é este: ensinaria o povo a ver. Nem todos necessitam desenhar ou pintar, mas se todos adquirissem a faculdade de apreciar a forma e a cor, que abundancia de prazeres teriam à sua disposição!” [1] Hoje, sabe-se bem o quanto, desenhar, desperta o lado direito do cérebro e nos permite utilizar melhor os dois lados igualmente.

“Os grandes artistas tomam a natureza por modelo, mas eles não tomam um modelo pela natureza”. [2]

A arte é a afirmação das esperanças dos povos.

Toda e qualquer ignorância é geratriz de escravidões, quando não, de imperfeições, que podem chegar ao ridículo, ao grotesco.

Para Piero della Francesca, “O desenho é o perfil e o contorno das coisas”. Vê-se logo que a definição é a de um esquizotímico, que tudo vê, conforme sua “constituição”. Diria um ciclotímico não avisado que desenho é contraste de massas e manchas... O certo é que toda definição é perigosa.

Na pintura, pode ele permanecer como dominador. Há os que preferem expressar-se pela pintura em si, através de manchas de cores, em contrastes de cores, em tonalidades, de preferência aos valores, defendendo os tonalistas que se contrastam com os valoristas.

Referido-se ao nosso Pedro Américo disse bem a professora Cordélia de Andrade: “Como artista, que dava importância maior ao desenho, tendia para a forma. Examinado-se por este ângulo a sua obra, chega-se à conclusão de que a exuberância de cores não tem lugar em artistas de sua características. A fatura,na maioria de suas pinturas, indica que a tinta servia mais para colorir seus desenhos, do que para conseguir efeitos de matéria, vibração de cor, luminosidade, cujos efeitos, muitas vezes, eram mais bem conseguidos nos próprios desenhos puros, como acontecia com Ingres, em cujas obras se influenciara, por ter sido seu discípulo”. E quanto a “pureza acadêmica”, em verdade, muitas vezes há mistificação, e, na maioria das vezes, nem isso: mediocridade, simplesmente. É o que muito se vê por aí. Falsos acadêmicos, assim como, também atualmente, pululam os falsos “modernos”... Lembremo-nos que moderno vem de moda... O que há são artistas envolvidos ou não, com o seu talento, marginais ao tempo ou ao meio... Que dão ou não dão uma mensagem...

Os impressionistas, para bem exemplificar, usavam de um mínimo de desenho. Os culminantes dessa escola, Beerthe Morisot, Monet, abusavam das manchas, das pinceladas justapostas, dando forma, colorido, luz, - o que mais buscavam, pela cor, a um só tempo. Afora o “modus operandi” impressionista, o desenho é para a pintura o que a base é para o edifício. [3]

“Sem a teoria do desenho não se pode ser bom estatutário nem bom pintor”. [4]

(...) “O desenho constitui a fonte e a substancia da pintura, da escultura, da arquitetura e de todos os outros gêneros de arte e a raiz de toda ciência”. [5]

“O desenho autônomo, bastando a si mesmo, como obra de arte definitiva poderá definir-se como “linguagem plástico-gráfica de autonomia expressiva”, nas palavras do professor Abelardo Zaluar. [6]



[1] H. Spped

[2] Charles Blanc

[3] J.B.de Paula Fonseca Jr.

[4] Ghiberti

[5] Miguel Ângelo Buonarotti

[6] Abelardo Zaluar, professor e pintor.

   
 

Os desenhos expostos à esquerda, são croquis de 5, 10 ou 15 minutos, feitos em lápis grafite 6,7 e 8B.

Odesenho em sanguínia foi colorido no Photoshop.

 
   

Não esqueçamos que muitos artistas executam desenhos preparatórios, que valem como obra de arte. Mais que o próprio acabamento de um desenho, a graça e a espontaneidade são inestimáveis valores.

O desenho seja ele qual for, denota a época, a moda ou a escola, e, sempre o temperamento dominante, quando não o do biótipo a que está preso constitucionalmente o individuo. Daí o ciclotímico barroco, o esquizotímico gótico. Mas..., a linha inexiste, é virtual.

Desenhar é interpretar formas. E tudo a de ter uma preparação. A arte é feita de medida, reflexões ao mesmo tempo que a inspiração. Uma obra pode e deve guardar a espontaneidade do primeiro gesto. Disse Goulinat. Só derroga quem é ciente das ciências. Deforma, e com sentido ridículo ou rude, quem não sabe, salvo exceções que confirmam a regra, por acaso, por genialidade, não muito encontradiça... Contudo, de qualquer forma, a arte é expressão do invisível, através do visível.

Dizemos mais, geralmente, com o “apenas sugerido”. Há quem só aceite o “completamente terminado”, com todos os detalhes e com minúcias prejudiciais, quando não inúteis, ou meros acessórios dispensáveis. Há quem apenas aceita e compreende o “completamente acabado” – o naturalismo, às vezes, totalmente estéril. E é raro que uma pintura possa conseguir uma interpretação realista tão acabada e ao mesmo tempo expressar aquelas amplas qualidades emocionais que constituem um bom quadro.

Não raro o desenho “acabado”, detalhado com excesso, torna-se frio, mudo, desinteressante, ou prolixo e enfadonho. O acabado nada tem a ver com a quantidade de detalhes. O inacabado pode surtir mais efeito que o acabado...

“Cada artista dará uma interpretação segundo seu temperamento, o seu modo de ver e sentir o modelo”. [1]

O desenho é uma grafia pessoal, o simples traço pode revelar, por si só, a personalidade do artista e a, e a um só tempo, a individualidade da coisa representada. Não insistiremos mais nisso porque, continuando, imitaríamos o velho Conselheiro Acácio do grande Eça de Queiroz.

Como base das artes plásticas, ou, independente, autônomo, exige conhecimentos prévios para que seja um meio perfeito de expressão liberta e total. Mas, a didática de seu ensino cumpre orientar-se pela a escola ativa, da vivencia e da liberdade, longe do ensino com professor autoritário, respeitando-se a personalidade dos alunos dentro dos seus respectivos temperamentos.

“...desenhos são para serem guardados em pastas, para serem folheados, são para serem lidos que nem poesia, são aicais, são rubais, são quadrinhas e sonetos. Desenhos que vão até os limites do papel implicam na composição para o quadro. Ao contrário, o desenho é um fato aberto, que desabrocha do centro, não implicando nos limites impostos por molduras ou pelo próprio retângulo do papel”. [2]

A cor é relativa, a forma é absoluta. As cores variam conforme o meio em que se encontram. Isso não acontece com a forma, conserva seu caráter, seja qual for o lugar ou o momento em que se observe.

A palavra desenho tem dois significados. Desenhar uma coisa é representá-la por meio de linhas, do claro-escuro (manchas). Desenhar é exprimir seu pensamento.

As formas que o desenho é chamado a reproduzir são todas engendradas pela linha reta e pela curva. Pitágoras, um dos maiores espíritos da antiguidade, olhava a linha reta como representação do infinito, porque ela é sempre semelhante à ela mesma, e este pensamento tomou uma forma admirável na expressão de Galileu quando disse: “A linha reta é a circunferência de um circulo infinito”. O casamento condizente dessas duas linhas é capaz de produzir a beleza. A reta, masculina, e a curva, feminina.

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R-SA">[3]

Para o estudante, é aconselhável o estudo dos dois processos: o de mancha e o de linha. Pelo estudo do desenho de contorno (de linha), acostuma-se a vista a observar com exatidão,apreende-se o valor expressivo da linha, adestra-se a mão a uma execução precisa.

Através da prática do desenho por meio de manchas, puramente visual, exercita-se o emprego do tom e de seus valores, aprende-se a interpretar a forma por meio de planos, a observar e empregar, com exatidão, a tonalidade das manchas (a configuração de valores), - a que se pode resumir a imagem visual.

Praticando só o desenho de linha, o estudante poderá não conseguir, jamais, bem entonar, dar boa atmosfera ao trabalho, e ressentir-se-á disso quando for pintar.

Exercitando, apenas, o desenho por meio de manchas, não educará a vista a observar as sutilezas dos contornos, e a estrutura da forma; não aprenderá como a direção e  movimento de uma pincelada sugere a forma mental. Será bom para o domínio absoluto da “técnica” do desenho, o estudo simultâneo dos dois procedimentos.

Qualquer que seja o desenho ele terá dois modos antitéticos de realização, ou terá um procedimento mixto. Será de mancha, de linha, ou, mixto. Seja ele preparatório (diz-se quando é uma etapa, e não um fim), ou, puro, valendo por si, como forma definitiva. Impossível existir sem a percepção do fundo e da figura, também chamado de negativo e positivo.

“Puro” é um gênero de arte. Ele é auto-suficiente. Qualquer que seja o desenho, deve ser válido por ele mesmo. [4]

“Porque, enfim, nem um herói, não suportaria a perfeição, como provou a mitológica figura grega... Provado fica, se Ulisses, herói, não suportou, em Ogigia, terra dos deuses, da divina Calípso, a “inefável paz e beleza imortal”, a perfeição, a absoluta perfeição, o homem normal, em mais breve tempo que o Herói, da sábia Grécia, seria vencido pelo enfado, onde houvesse, sempre, sem intermitência, a abundância, o repouso, o esquecimento dos cuidados, e as memoráveis conversas que contentam a alma, e,  sempre, fosse, bem nutrido, revestido de linhos finos, sem nunca perder a querida força, nem a  agudeza do entendimento, nem o calor da facúndia; onde quer que fosse, privado de ver o trabalho, o esforço, a luta e  o sofrimento... Porque, ele, o homem insaciável, por destinação natural, tem que viver onde a alma arde no desejo do que se deforma, e se suja, e se espedaça, e se corrompe... E, terá, sempre, nas horas de completa serenidade, de quietude monótona de um lago morno, uma irreprimível saudade do mutável, do vir a ser de novo, e terá saudade da morte! Porque o homem há de, sempre, querer partir para os trabalhos, para as tormentas, para as misérias – para a delicia das coisas imperfeitas!” [5]



[1] Henrique Cavaleiro.

[2] Mario de Andrade.

[3] Pitágoras.

[4] Professor J.B. de Paula Fonseca, em “desenho artístico”, 1964.

[5] Eça de Queiroz, em seu conto “A perfeição”