As figuras II
       
   

 As figuras II   

 
 

  A paisagem
As águas
As figuras  
Palavras
O desenho

   
 

 

 C o mecei a me envolver com o tema "Carnaval”,  a partir de uma capa de disco recusada, quando ainda era artista gráfico atuante... Eram sucessos de carnavais passados, regravados por artistas contemporâneos e famosos. Foi esse quadro amarelo, que chamei "O penúltimo carnaval", o palhaço bebendo vinho com o pierrô tocando violão. D a decepção da recusa, direto ao meu amigo Heleno Oliveira que, vendo o quadro disse: "_ Não esquenta com esse pessoal não! (...), vai pra casa, pinta trinta quadros desses e faz uma exposição que vai ser um sucesso!”. Bem... Isso foi em 1983. (O texto continua no final da página).

 
   "Penultimo carnaval",73x100cm o.s.t. 1983       
 

 

  A exposição só saiu mesmo em 1987, na Galeria Toulouse, do Cláudio Valansy, em Copacabana. Foi mesmo um sucesso. Mas, antes disso, foram quatro anos de muitos estudos, desenhos, e, ao final, trinta e cinco telas a tinta óleo, em várias dimensões. O “Clóvis” verde e a morena de costas com penacho vermelho, intitulado "O penúltimo carnaval- II ". Desde aquele dia está na coleção particular do também amigo, Umberto Contardi. Foi o convite!

 
    "Penultimo carnaval, outravez", o.s.t. 73x180cm 1987      
   "Ararajuba", é uma ironia junto ao tema Carnaval, já que a ave quase não aparece nesta tela. A figura da fronha, tipo característico dos festejos de Momo, é o único pesonagem que absolutamente não ri.Perplexo diante do texto inaudível do palhaço com a mão em seu ombro. Todos riem no quadro  menos ele. Do que todos riem? Do que só ele não ri? Coisas do mundo, coisas dos sonhos, dos delírios brasileiros... Há um personagem com ao papagaios, que ouvindo o que dizem, parece justificar sorrindo, o saco de dinheiro ao seu lado  

 

 
       "Ararajuba" a.s.t. 100x180cm2003  
 

"Cartas na manga", é na verdade o jogo sujo do poder. Nas mangas de cada um dos clóvis, um tipo do carnaval niteroiense, estão cartas nem tão escondidas assim... Os clóvis são aqui, os poderosos do mundo todo. Pode ser até o pequeno mundo, o mundinho de cada um de nós mesmos. Ao fundo, o personagem setecentista, o poder colonial, imperial. Viu que ninguém tem olhos mas olham? Pois é, a mesa onde jogam é um caixão coberto com a bandeira brasileira. Um caixão sem alças e "sem gavetas"; onde não cabem os pés em sapatos furados do homem explorado, insepulto. A fita ou serpentina nada mais é que o escárnio do insensível que prefere olhar as mulheres. As mulheres atrás da mesa, são as prostitutas do genial Henri de Toulouse Loutrec. Por fim, um apaisagem emoldurada do nosso Cristo Redentor no Corcovado", e o Pão de Açucar, impávido colosso... sob o céu dourado do fervente verão do "fervereiro"...   

  

 

  "Cartas na manga" a.s.t. 1120x180cm 2003  

 
 

A vocês! (1915) d o livro Poemas em tempo brasileiro de Vladimir Maiakovski, Edições Tempo Brasileiro, coleção Tempoesia, Rio de Janeiro 1967. Tradução de Augusto de Campos.

[1] Condecoração da russia czarista, concedida unicamente por ato de bravura em campo de batalha.

A vocês! (1915) d o livro Poemas em tempo brasileiro de Vladimir Maiakovski, Edições Tempo Brasileiro, coleção Tempoesia, Rio de Janeiro 1967. Tradução de Augusto de Campos.

[1] Condecoração da russia czarista, concedida unicamente por ato de bravura em campo de batalha.

[2] Igor Sievieriâni (1887-1942) representava o chamado “ego-futurismo”, combatido por Maiakóski e seus companheiros “cubo-futuristas” como uma espécie de futurismo de salão.

 

Vocês que vão de orgia em orgia, vocês

Que tem mornos bidês e W.C.s,

Não se envergonham ao ler os noticiários

Sobre a cruz de São Jorge [1] nos diários?

Sabem vocês, inúteis, diletantes

Que só pensam encher a pança e o cofre,

Que talvez uma bomba neste instante

Arranca as pernas ao tenente Pietrov?...

E se ele, conduzido ao matadouro,

Pudesse vislumbrar, banhado de sangue,

Como vocês, lábios untados de gordura,

Lúbricos trauteiam Sievieriâni! [2]

Vocês, gozadores de fêmeas e de pratos,

Dar a vida por seus bacanais?

Mil vezes antes no bar às putas

Ficar servindo suco de ananás.


 
 

"O passista é um personagem em extinção como o Zé Pereira ou as Sociedades carnavalescas, Os corsos, os Ranchos? Quantas alegorias ao longo dos milênios, entre faraós e banhos turcos, Dominique Ingres, Jaques Louis Davi, e tantos outros pintores e poetas serão precisos para podermos preservar alguns valores fundamentais do ser humano. Talvez, A Verdade, seja a dor maior do opressor... O povo resiste na simplicidade da sua verdade ao ataques ferozes das civilizações modernas que nada mais fizeram além de sofisticar seus métodos de extermínio... Lá ao fundo pairam  as figuras de dois Anjos! 

 

 

"O passista e seu pandeiro"  a.s.t. 120x200cm 2001

 
           
 

Um "Nu" no Carnaval, só poderia ser chamado de: "Nuvarnaval", uma visão do interior passando pelo corpo moreno da "maja" em pleno Carnaval. Houve um tempo em que a pintura do nu era o que para nós hoje são sa revistas chamadas "masculinas". Perdoem os saudosistas mas o bom gosto dos grandes mestres pintores, nunca mais... Se Goya, "o sordo", o mestre estivesse ainda entre nós certamente me absolveria. (...)" Mas documento não há que cubra a nudez daquela a quem a pequena História chamou, também, "duquesa Libertina". E a Maja Vestida , com que o já surdo Francisco José de Goya y Lucientes respondeu à chibata social, a transgressora transparência com que cobriu a deusa nua, também não aplacou a fúria dos inquisidores. Mas nem toda a nudez será castigada. Desta vez, o que está coberto é que merece castigo.
(...) "O Goya que partilha o leito de Cayetana é um homem acossado pela doença. Mas é neste período que pinta o quadro maldito, a Maja Desnuda, que, pela primeira vez na história da pintura, mostra os pêlos púbicos femininos.
É ainda neste período que Goya produz o álbum de desenhos de mulheres no qual perpassa a intimidade de uma relação forte que o leva, já velho, no exílio de Bordéus, a abrir o coração, em correspondência com Vítor Hugo. Numa das cartas, Goya refere-se às febres que lhe haviam levado a musa e amante. (...) "Os papéis do óbito desapareceram e quando, em 1945, lhe exumaram os restos mortais, verificou-se que lhe faltava um pé.

 

 Há um belíssimo poema de Nuno Júdice inspirado na autópsia de Cayetana.   Do fundo do texto, fitam-nos "os olhos desmaiados de prazer" daquela que "nua e vestida está inteira". O poema adivinha um qualquer juízo final em que os restos da deusa morta se hão-de colar "E Maria Teresa Ca

yetana de Silva, restituída a seu esplendor, se apresentará com o argumento com que a limpo, agora, do pó dos séculos: a beleza absoluta de seu corpo, o mais puro sinal de que merece a eternidade."Já Goya lhe erguera a celebrada ara. Penso em Goya, no exílio que Vítor Hugo chamou " a nudez do direito", e vejo-o com a bela cabeça de Paco Rabal, tal como no filme de Carlos Saura. Já perto do fim. Perto da nudez absoluta. Como se sabe, quando exumaram o corpo de Goya, o pintor não tinha cabeça. Por isso, o que, na cova funda onde dormem Cayetana e Goya, permanece envolto em mistério é, afinal, o que devia vir a nu. (...) Com tudo isso é possível imaginar ainda hoje a pérola de São tomás de Aquino: "A mulher é o escremento da criação!"


 

                                 "Nú carnaval"  a.s.t. 100x180cm 2003  

 
         
 

Quando "O corso" foi exposto pela primeira vez em 2003, durante a festa de inauguração, em meio ao povaréu dos convidados, veio até mim juntamente com dois de seus filhos, uma senhora pequenina de noventa e dois anos de idade. Ela estava sorridente e dizia o quanto estava satisfeita de poder rever através desse meu quadro os bons tempos em que ela participava dos "Corsos", durante os carnavais da sua juventude. - O quadro mostra o meu tempo, igualzinho, estou emocionada. Não resisti e perguntei. - Mesmo com essas mulheres nuas todas? _ Era assim mesmo meu filho.

 Quem tiver alguma dúvida é só dar uma lida no texto do Luiz Edmundo que está na página anterior.

 

   

 "O corso" a.s.t. 100cmx180cm 2003

 
         
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